terça-feira, 15 de outubro de 2013

Você é viciado em internet?



Se você vive conectado e não suporta ficar offline, cuidado: é possível que vc esteja viciado em internet! O problema afeta mais de 50 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da Universidade La Salle, nos Estados Unidos, e 4,3 milhões no Brasil. Esses números só aumentam devido a maior facilidade de acesso à web e pelo desenvolvimento tecnológico.

Os médicos e especialistas afirmam: é uma dependência tão crônica quanto à de substâncias como álcool e cocaína, o transtorno já é reconhecido pela Associação Americana de Psicólogos como Internet Addiction Disorder (Transtorno do Vício de Internet).

Para a cientista Kimberly Young, da Universidade São Boaventura, nos EUA, e diretora do Centro de Recuperação de Dependentes de Internet, os sintomas são semelhantes aos de muitos outros vícios: o indivíduo muda sua rotina, negligencia as relações familiares e sociais e perde prazos no trabalho, porque sua vida passa a ser controlada pelo computador e afins. Quando o quadro se torna crítico e patológico, é preciso recorrer à ajuda psicoterapeuta.


O hábito de estar sempre online pode trazer riscos à saúde física e mental: avaliação feita com usuários assíduos mostrou que o vício está associado a alterações de humor, risco de depressão e sinais de abstinência, além de fazer com que o sujeito apresente traços de autismo. Entre os sintomas físicos, destacam-se taquicardia, sudorese, secura da boca e tremedeiras.

A longo prazo, há comprometimento da postura, lesões por esforço repetitivo (como tendinite), obesidade ou subnutrição (por causa da má alimentação) e deformidade da visão.

Vivemos uma realidade que tem mudado de maneira significativa. Um dos pontos centrais de toda esta transformação, sem dúvida alguma pode ser atribuído ao nosso acesso à tecnologia. Em uma época em que estar conectado virou algo normal, no computador de casa ou do trabalho, pelo laptop, smartphone ou tablet, a tecnologia se tornou parte de nosso dia a dia

Outra pesquisa, conduzida no final de 2012 pela Universidade de Bonn, na Alemanha, levanta a hipótese de, em alguns casos, a culpa ser dos genes: haveria uma variação genética específica entre os obsessivos, que afetaria mais as mulheres. O panorama é tão grave que a próxima versão do Guia Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicação internacional dirigida a profissionais da saúde, deve incluir o vício na lista de distúrbios psiquiátricos.

A preocupação dos organismos mundiais se concentra nos jovens e nas crianças, sempre mais vulneráveis a este tipo de dependência. Só para se ter ideia, os Estados Unidos, China e Coreia do Sul já registraram casos de mortes de rapazes e moças que passaram dias ininterruptos em joguinhos virtuais. O.o

O fato é que a internet proporciona um prazer quase imediato, ativando um sistema de recompensa no cérebro que estimula o usuário a querer repetir a sensação. "A web seduz o homem contemporâneo que busca se satisfazer com rapidez e facilidade. A 'recreação' está disponível a qualquer momento e na intensidade que desejar, e assim ele dribla o mal-estar imposto pela realidade. Além de sacrificar as relações e interações pessoais e se tornar refém de uma máquina que despeja imagens, jogos, soluções velozes", reflete Araceli Albino, psicanalista e doutora em psicologia, presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo.

O indivíduo vivencia uma série de experiências agradáveis que incluem desde a possibilidade de abstrair o tempo até um incrível sentimento de poder, "em que cada um é o 'senhor' que determina, com o apertar de uma tecla, se exclui ou se conecta a pessoas e informações de maneira imediata no mundo inteiro", diz Nanci.

Outro ponto que contribui para o vício é a falsa ideia de que você pertence a um grupo, tendo a possibilidade de interagir com todos e podendo se apresentar como quiser, subtraindo em parte ou totalmente o que não gosta em si mesmo. O hiperconectado perde, mesmo, o controle sobre a prática. "Acredita-se na relação entre o uso abusivo da internet e o encolhimento de regiões cerebrais, em particular da área responsável pelo autodomínio."

Em relação a quem teria mais propensão à dependência, pela dificuldade de se expor e por encontrar, na tela, um ambiente seguro para interagir; o ansioso, que deseja ter controle sobre tudo; e o compulsivo, por se fixar e repetir o mesmo comportamento várias vezes. "Alguns aspectos psicológicos e sociais colaboram com o distúrbio, como fobia social, baixa autoestima, depressão, solidão e isolamento."

Um sujeito afetivamente carente, inseguro e solitário, que não consegue lidar com as frustrações inevitáveis da realidade, encontra no mundo virtual um amparo. "E, dessa forma, cria um mundo idealizado em que possa se sentir seguro. Há um embotamento mental e emocional, uma alienação no imaginário, privando a pessoa do contato físico e do afeto, importantíssimos para o bem-estar."

Como todo o excesso tende a ser negativo, o perigo do internauta obsessivo é se desprender do mundo real para viver num universo paralelo, afastando-se das relações sociais de verdade, num processo de fuga psicológica. Ele perde a habilidade pessoal, percepção, tato, paciência e tolerância para lidar com o outro, para de ler, tem seu raciocínio crítico minimizado e comumente adia tarefas e compromissos, gerando prejuízo familiar, social, acadêmica, profissional.

"Só nos humanizamos pelo estabelecimento de relações, isso acontece desde que nascemos, não dá para trocar o afeto do cuidador pela máquina. No futuro, como se comportará este homem que navega, conversa, namora, faz sexo, cria identidades, se protege atrás da tela e se sente dono do mundo?", indaga Araceli Albino, acrescentando que o terreno virtual é favorável à fantasia, ao agrupamento sem a presença da lei, às regras horizontais em que vale tudo. "A pessoa se reinventa a cada dia, mas se aliena no objeto, fica aprisionada em uma cadeia sem grade".

Para terminar, a psicanalista e neurocientista Nanci Azevedo Cavaco faz um alerta: "Compreenda que a internet pode aproximar quem está longe, mas distancia quem está perto".

Créditos: Uol Notícias

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