sábado, 19 de outubro de 2013

Se fôssemos feitos para durar 120 anos

Cientistas americanos mostram como o corpo deveria ser para vivermos bem mais de um século.

Se a expectativa de vida na Alemanha mantiver o crescimento atual, as crianças que nascem hoje naquele país viverão em média até os 100 anos. Diante da nossa atual realidade, o sonho de que se possa viver muito além dos 100 anos se afigura cada vez mais possível. Mas não muito mais, pois há raros casos de pessoas que ultrapassam os 120 anos, idade que parece ser nosso limite natural. A questão que se coloca é: poderíamos transpor, com saúde, essa barreira biológica? Os cientistas americanos Robert Butler, do Centro Internacional de Longevidade, de Nova York, Bruce Carnes, da Universidade de Chicago, e Jay Olshansky, da Universidade de Illinois, estudaram o assunto e concluíram que não. Para eles, se a evolução tivesse desenhado o corpo humano para durar um século ou mais com perfeição, nós teríamos uma aparência muito diferente da atual.

Butler, Carnes e Olshansky fizeram o exercício de imaginar como teria de ser o corpo de uma pessoa centenária e totalmente saudável, construído para a longevidade. Nós seríamos criaturas mais baixas, mais cabeçudas, mais orelhudas, encurvadas, de coxas e quadris mais largos. Tudo para evitar o desgaste natural causado pelo uso prolongado do corpo. Sem essas e outras mudanças, os idosos continuariam sofrendo com ossos frágeis, discos da coluna gastos, ligamentos destruídos, varizes, cataratas, perda de audição e hérnias. Uma das características estruturais mais importantes que precisariam ser modificadas é a coluna vertebral, que costuma apresentar os primeiros sinais de desgaste muito cedo. A postura ereta do ser humano é uma adaptação de nossos ancestrais quadrúpedes. Foi o que nos permitiu desenvolver a inteligência. Mas a coluna vertebral não evoluiu o suficiente para resistir ao peso de um corpo apoiado em apenas duas pernas. E isso traz sérios problemas físicos, como o desgaste dos discos entre as vértebras, que passam a pressionar as terminações nervosas da coluna, provocando dores insuportáveis.


O idoso de 100 anos ideal imaginado pelos cientistas serve para mostrar que é mais importante prolongar a saúde do que perpetuar a vida. O envelhecimento está diretamente relacionado à função reprodutiva do ser humano. A natureza planejou homens e mulheres para se reproduzir e viver tempo suficiente para criar seus filhos. O auge do bom funcionamento do corpo coincide com o período em que estamos mais aptos para reproduzir. Tanto homens como mulheres têm uma vida reprodutiva limitada. Com o tempo, as mulheres deixam de ovular e se reduz bastante a capacidade masculina de produzir espermatozóides. Quando acaba o auge da capacidade de reprodução, começa a decadência do corpo. Articulações, músculos e outros traços anatômicos que nos serviram tão bem durante a juventude começam a dar sinais de fraqueza. Certas doenças de caráter genético, cuja predisposição para aparecer é transmitida de geração para geração, como a doença de Alzheimer, só se manifestam em idades mais avançadas e, por isso, são "ignoradas" pela seleção natural. Ou seja, a natureza tende a selecionar as qualidades do indivíduo que o ajudam a sobreviver até a fase reprodutiva, e não aquelas que determinam uma velhice mais saudável. Por isso, do ponto de vista da evolução, a longevidade não traz vantagem alguma.

Alguns cientistas defendem que a ciência deve colocar todos os instrumentos possíveis a serviço do objetivo de estender a vida e retardar o envelhecimento, mesmo que o ser humano não tenha sido planejado para isso. A medicina do século XX identificou e eliminou as causas das doenças infecciosas, o que, junto com uma série de mudanças no estilo de vida ajudou a aumentar a média de vida da população. A medicina do século XXI procura a solução para as doenças vasculares, o câncer, as patologias degenerativas e as inflamações crônicas, males que acometem com freqüência pessoas idosas. A engenharia genética promete ser a chave para a cura dessas doenças e para a ampliação do limite da longevidade humana.

O médico Nir Barzilai, do Instituto para Pesquisas do Envelhecimento, da Escola de Medicina Albert Einstein, nos Estados Unidos, divulgou o resultado de um estudo feito com 300 pessoas com cerca de 100 anos e seus familiares. Os velhinhos entrevistados tinham hábitos sedentários e não faziam nenhuma dieta especial que justificasse a vida prolongada. A explicação é puramente genética. Barzilai diz ter descoberto um gene responsável por 18% da longevidade dessas pessoas centenárias. Segundo ele, empresas farmacêuticas dos Estados Unidos já pesquisam remédios que atuam sobre esse gene, retardando o envelhecimento.

Não faltam interessados em patrocinar o sonho da eternidade. Nos Estados Unidos, o bilionário John Sperling, empresário do setor de educação, fundou um instituto para desenvolver técnicas que aumentem a longevidade humana. Sperling, de 77 anos, decidiu que, quando morrer, sua fortuna de 3 bilhões será destinada a esses estudos. As pesquisas com clones humanos divulgadas na Coréia do Sul em 2004 devem permitir a produção de tecidos para transplantes, também poderão ser usadas para aumentar a longevidade, ou pelo menos para fazer com que as pessoas tenham uma velhice mais saudável. Permitir que a humanidade viva o máximo de tempo possível com saúde é o objetivo da maior parte dos cientistas e pesquisadores. A questão é saber qual o limite que se quer para a extensão da vida humana. Uma sociedade em que o número de aposentados é maior que o de pessoas em atividade poderia entrar em colapso. Em muitos países, as pessoas param de trabalhar quando entram na casa dos 60 anos. Se fosse possível superar as limitações estruturais do corpo humano e estender a vida para além dos 120 anos, seria preciso rever todo o sistema social e econômico atual.


Fonte: http://veja.abril.com.br/

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